No dilema entre poupar e viver a vida, escolha os dois

Especialistas ensinam que segredo para ter bem-estar e equilíbrio financeiro é ter organização e disciplina

Em diferentes fases da vida, o dilema entre poupar pensando no futuro ou gastar e aproveitar o presente perturba o sono de muita gente. Muitas vezes, a opção por fazer refeições fora de casa ou viagens sem o devido planejamento parecem escolhas inofensivas, mas podem prejudicar, sim, o acúmulo de patrimônio e o bem-estar na época da aposentadoria. A chave, segundo os especialistas, para curtir sem comprometer a poupança está em organizar as finanças, descobrir para onde vai cada gasto e, assim, fazer escolhas mais inteligentes.

O educador financeiro e fundador da Academia do Dinheiro, Mauro Calil, defende que guardar dinheiro ou viver a vida é, na verdade, um falso dilema. Para ele, não apenas é possível fazer tudo ao mesmo tempo, como se pode consumir mais gastando menos. Com organização e conhecimento, é possível dominar o dinheiro, ter a economia que se deseja e conquistar um padrão de vida mais elevado, diz. Para isso, no livro “Separando uma verba para ser feliz”, Calil propõe um método chamado “Fast” para multiplicar as economias. A sigla une as iniciais dos verbos fazer, antever, salvar e turbinar. Fazer representa fazer dinheiro, ter uma renda. Antever é planejar-se, avaliar que destino dar a cada centavo gasto. Salvar, para o especialista, por carregar os significados de um “ato nobre” e de senso de urgência, seria separar parte da renda para construir um patrimônio e ser feliz, fugindo dos maus gastos. Turbinar é usar aplicações financeiras para aumentar seu rendimento.

— É preciso ter um mínimo de controle e combater o consumo tolo para destinar seu dinheiro a algo mais nobre. Claro que a avaliação do que é essencial ou não varia de pessoa para pessoa. Mas é preciso pensar grande. Se ir ao salão de beleza ou tomar um cafezinho são as recompensas por suas conquistas, é preciso avaliar se você não está conquistando pouco — diz.

Além disso, curtir a vida intensamente no longo prazo sem ter uma poupança é privilégio de poucos. O sócio-diretor da XP Seguros Mateus Schaumloffel lembra que todos têm uma curva de acumulação de capital e, sem guardar enquanto se gera renda, não há mágica: o dinheiro vai faltar.

— Pode-se viver primeiros anos muito felizes, mas os outros não serão. O governo oferece a aposentadoria apenas para garantir a sobrevivência. Quem quer manter o padrão de consumo no longo prazo precisa de alternativas.

Segundo o especialista, a forma de poupar hoje e garantir o futuro que melhor atende à maioria das pessoas é a previdência complementar. Mas quem se interessa por investimentos pode diversificar suas aplicações. Seu conselho é que no mínimo 10% da renda líquida do indivíduo vá para uma reserva financeira. Uma boa margem seriam 20% e uma excelente, 30%. Essa escolha dependerá, porém, do tempo de acumulação de cada um.

O economista Leonardo Rodrigues, de 25 anos, hoje já supera o patamar apontado pelo especialista como ideal. Ele consegue poupar 50% de sua renda líquida. A disciplina e a força de vontade ele diz que conquistou naturalmente. Leonardo ainda mora na casa dos pais e, desde os 18 anos, quando começou a estagiar, lança todos os seus gastos numa planilha no computador. No arquivo, separa dados de seus investimentos de curto e longo prazo e divide as despesas por categorias, como roupas, viagens ou carro. Há até uma conta chamada liberdade para as pequenas extravagâncias mensais. O poupador nato garante que não deixa de fazer viagens ou sair com os amigos por conta disso.

— Só gasto quando a planilha permite — reconhece Leonardo.

Orçamento doméstico é primeiro passo

Uma planilha de orçamento doméstico é ferramenta essencial para quem começa a se planejar, ensina Mauro Calil. O professor de Macroeconomia da Fundação Instituto de Pesquisas Contáveis, Financeiras e Atuariais (Fipecafi) e consultor financeiro Silvio Paixão vai além: defende que as pessoas deveriam separar a renda em três grupos: qualidade de vida (no qual entram gastos com moradia, alimentação e o que mais for necessário para viver adequadamente), diversão e reserva financeira. Dentro da reserva financeira, propõe a criação de três caixas: uma de emergência, outra para sonhos e realizações e outra para guardar dinheiro para a aposentadoria.

— Não dá para viver poupando para o dia de se aposentar. Nem sair gastando. As pessoas têm de fazer escolhas para ter uma vida que tenha prazer, mas que não traga desespero quando o dinheiro faltar — pondera.

Entre essas escolhas, os especialistas destacam que é possível optar por uma forma de lazer mais em conta ou uma viagem mais barata do que a pretendida como forma de equilibrar bem-estar e a garantia de um futuro tranquilo.

— Lazer é um gasto necessário. Sem ele, a gente morre louco — afirma Calil.

Para ter o melhor dos mundos, ou seja, poupar e curtir a vida, o economista e autor do livro “Tranquilidade Financeira – Saiba como investir no seu futuro”, Humberto Veiga, defende que é preciso estimar de quanto se vai precisar no futuro, com base em um orçamento simples, e verificar se a renda de hoje é suficiente para prover o padrão de vida planejado. Nesse montante, entram previdência pública, aluguel de imóveis e outras fontes de renda que não dependam do trabalho futuro.

— Não adianta fazer uma superpoupança, que somente servirá para que outros usufruam, nem uma que seja inútil — resume Veiga.

A reserva financeira ideal, dizem os especialistas, deve ser construída com disciplina e regularidade. Assim, mesmo nos momentos de maior aperto financeiro — durante a compra da casa ou após a chegada de um filho, por exemplo — é possível poupar. Não é o planejamento que deve mudar nessa fase, ensina Veiga; ao contrário, a atitude poupadora deve ser mantida.

— A própria palavra planejamento pressupõe a “visualização” desses diferentes momentos e a previsão de um comportamento diferente em cada um deles. Quando se planeja, ainda que aconteça tudo diferente do que imaginou, há mais tranquilidade, porque você acaba fazendo algumas conjecturas e se prepara melhor para as adversidades.

O especialista lembra, no entanto, que uma reflexão mais profunda, sobre que gastos seriam realmente necessários na vida de cada um, é indispensável:

— Vivemos numa sociedade de consumo em que tudo é direcionado para que tenhamos que trabalhar e consumir, inclusive no lazer. A crise financeira na qual o mundo se encontra deriva exclusivamente disso. Criam a necessidade de comprar e consumir cada vez mais e com a utilização de crédito. Se você consegue sair dessa que foi chamada a “corrida dos ratos” (uma referência àquela rodinha que ficam nas gaiolas para os hamsters correrem sem sair do lugar), na qual você trabalha e consome e trabalha mais para consumir mais, está a um passo de resolver seus problemas financeiros.

Publicado em 19/04/2013
O Globo

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