Aposentado: Crédito fácil aumenta endividamento

Praticidade dos consignados faz idosos esquecerem dos juros.

A modalidade de empréstimo consignado – aquela em que o desconto é feito direto na folha de pagamento –, está se tornando uma prática comum para aposentados e pensionistas. Mas por trás da vantagem do dinheiro está a falta de informação sobre os juros cobrados, o que está deixando muitas pessoas no vermelho.

Segundo o advogado Luiz Felizardo Barroso, especialista em recuperação de crédito, a explicação para este fenômeno de endividamento dos aposentados está no que ele chama de “propaganda enganosa” por parte das empresas.
“Esses empréstimos são desastrosos, porque como sua própria condição de aposentado deixa entrever, estes trabalhadores, já jubilados, na maioria das vezes não possui outras fontes de renda, e o que é pior, nem a perspectiva de vir a tê-las”, alerta.

A pensionista Yolanda Dantas, de 69 anos, precisou recorrer ao empréstimo consignado depois que o marido faleceu. Segundo ela, uma amiga que trabalha em uma financeira a ajudou na tarefa. “Tinha algumas dívidas para pagar e foi por este motivo que peguei uma grande quantia com o banco. Depois de um tempo, precisei de mais dinheiro e renovei o empréstimo consignado”, conta Yolanda, que ao todo precisou de R$ 15 mil.

Segundo a pensionista, ela desconhece o valor dos juros que é cobrado pelo empréstimo que fez. “Tenho uma renda mensal de R$ 3 mil, sendo que o banco desconta todos os meses R$ 542. Esse dinheiro me faz falta, mas mesmo assim dá para viver. No meu caso tenho uma pessoa de confiança que cuida dos empréstimos. Mas para quem não tem as informações sobre os juros, elas deveriam ser mais claras”, comenta.

Quem também precisou recorrer ao crédito consignado, foi o aposentado Paulo Rezende, de 62, que é ex-funcionário da Varig. “Já recorri sete vezes ao empréstimo consignado. Como todos sabem, com a falência da empresa os funcionários da Varig saíram prejudicados. Mas sinceramente sei que os juros são altos e não queria precisar destes empréstimos, que no final das contas acabam comprometendo ainda mais a nossa renda”, diz.

Bancos – Atualmente, a taxa máxima de juros, estabelecida pela Previdência Social, é de 2,34% ao mês, para o empréstimo, e 3,36% ao mês, para o cartão consignado. Mas cada instituição bancária pode aumentar ou diminuir os juros, dentro do teto permitido, dependendo do tempo do empréstimo, do valor solicitado ou até mesmo do relacionamento entre o cliente e o banco.
No Congresso Nacional já existe uma Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado, composta por deputados federais. Eles querem que seja feita uma ampla campanha nacional para alertar os aposentados sobre o risco do empréstimo consignado na vida financeira.

Governo – O empréstimo com desconto direto na folha de pagamento de benefícios do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS) foi autorizado em 2003. Desde 2004, já movimentou R$ 98 bilhões, sendo R$ 47 bilhões em empréstimos ativos. Mais da metade dos empréstimos são feitos por pessoas que recebem um salário mínimo. O pagamento não pode ser superior a 30% do benefício.
O presidente do INSS, Mauro Hauschild, garante que a segurança tem melhorado. Ele explica que a corregedoria do órgão recebe denúncias de fraude pelo telefone 135. Em 2008 foram 21 mil queixas, sendo 3,7 mil consideradas procedentes. Em 2010, foram 12 mil, sendo 2,7 mil procedentes. Nesses casos, o banco tem de ressarcir o correntista.

Riscos – Para a presidente do Conselho Nacional dos Direitos do Idoso, Karla Cristina Giacomin, o empréstimo consignado coloca em risco a sobrevivência do idoso. Ela afirma que 80% da renda dessas pessoas são destinados à sobrevivência e que o limite de 30% do empréstimo é, portanto, uma ameaça a essas condições.
Karla Giacomin acredita que os bancos se aproveitam de uma situação de fragilidade da visão, da memória e da audição para iludir o aposentado.
“Embora seja, em tese, um benefício, está sendo mal utilizado, deixando o idoso ainda mais vulnerável ao endividamento e a pessoas de má-fé”, comenta.

De acordo com o conselho nacional, o idoso é mais vulnerável à fraude em decorrência da fragilidade física e também porque há um alto índice de analfabetismo.

Publicado em 11/07/2011
(Ricardo Rigel – O Fluminense-10.07)

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