Aposentadoria: juntar reservas não é o bastante

Reproduzimos, abaixo, artigo de Renato Bernhoeft, fundador e presidente da Höft Consultoria, que representa o “The Family Business Consulting Group International” (FBCGi) na América Latina: ” O mundo pós-crise não é mais o mesmo em todos os segmentos do mercado, bem como para cada indivíduo. Um dos grupos que deverão rever toda a sua estratégia é o dos planos de previdência, tanto aberta como fechada.”

O principal alerta é que o cliente desses planos deverá tornar-se mais ativo e responsável pelo processo de preparo para a aposentadoria. Não poderá mais apenas confiar numa eventual reserva financeira para essa futura etapa da vida. Até porque, os rendimentos agora previstos já não correspondem aos níveis de quando o plano foi oferecido ou contratado. E poupar voltou a ser tão ou mais importante do que apenas obter bons retornos das aplicações financeiras. Ou seja, se exigirá mais tempo de poupança para manter a renda prometida.

Todas as abordagens utilizadas até agora para sensibilizar e convencer as pessoas sobre os cuidados em relação ao futuro, na perspectiva do envelhecimento e da aposentadoria, sempre estiveram muito centradas na questão da reserva financeira para manutenção de um padrão de vida. Quando muito, ampliavam esta colocação com um alerta e informações sobre temas relativos aos cuidados com a saúde na terceira idade.

Esta forma de tratar o tema não é equivocada, com certeza. Mas ela sempre foi insuficiente. Caso não seja modificada, corre o risco de ser a cada dia mais incompleta e ultrapassada. A ideia deste artigo é provocar reflexões sobre a amplitude do assunto. Tema cuja tendência é ter sua importância ampliada cada vez mais. Especialmente ao considerar o aumento nos índices de longevidade da população.

Em primeiro lugar, é necessário desmistificar a falsa ideia de que, no futuro, o maior sonho de consumo é a possibilidade de apenas desfrutar da vida. Considerando, exclusivamente, o ócio ou lazer. Tudo isso como forma de compensar a longa fase de tormento provocada pelo período de toda uma vida dedicada ao trabalho, carreira ou emprego.

Segundo estudiosos das etapas da vida e do comportamento humano, não somos educados para o ócio. Somos essencialmente preparados, desde muito cedo, para o mundo do trabalho. Basta observar a forma como dividimos estas fases.

A divisão destas etapas refere-se a uma primeira fase em que fomos orientados a trabalhar. Desde a infância – e essa tendência tem aumentado a cada dia -, a criança é induzida ao aprendizado de idiomas, telemática, habilidades relacionais, atividades artísticas ou esportivas etc. Razão pela qual temos hoje um quadro de muitas crianças com sintomas de estresse precoce em função das altas expectativas ao qual são submetidas.

Alguns pais, inclusive, fazem suas escolhas de escolas, clubes e relacionamentos visando proporcionar aos filhos alternativas e facilidades para seu futuro profissional. E tudo isto para que a criança, ou adolescente, possa estar preparado e obtenha sucesso na segunda etapa da sua vida, que será a do trabalho ou emprego. Principalmente dentro da ideia que de necessita construir uma carreira que busque obter, como resultado primordial, tornar-se uma pessoa com êxito na vida.

Quando a pessoa atinge a etapa adulta, e começa a pensar na fase do pós-trabalho, só imagina – ou fantasia – o ócio, lazer e alegrias. O que na pessoa não consegue avaliar é que, de fato, não houve um real preparo para esse novo período da vida. Apenas uma idealização.

Curiosamente, estes efeitos têm se apresentado de forma mais constante e negativa nas figuras masculinas de alta e média gerência das corporações. Os homens concentram toda a sua busca de realização apenas na carreira profissional e seus símbolos de poder. As figuras femininas tiveram de assumir, ao longo de seus desafios profissionais, vários outros papéis na qualidade de cônjuge, parceira, mãe, administradora da casa etc. Isso permitiu a elas não colocar a carreira como única fonte de realização.

Portanto, além de uma adequada equação das questões financeiras para a aposentadoria, e também das necessidades relacionadas à saúde, qualidade de vida e lazer, outro conjunto emerge. E, a cada dia com novos desafios.

Importa observar que, para o preenchimento desta lacuna, os fundos de previdência devem assumir papel de alerta e orientador. A responsabilidade de como encaminhar o processo deverá ser de cada um, mas sempre de forma muito coerente com seu estilo de vida hoje e com o que deseja no futuro. No próximo artigo estas novas áreas serão desenvolvidas, com alguns pontos de reflexão.

Publicado em 09/12/2009
Valor Econômico

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