Como formar investidores em casa

O sucesso dos filhos ao lidar com o dinheiro no futuro depende, em boa parte, da educação que recebem em casa. “O ponto de partida são o pai e a mãe”, afirma a psicóloga Angélica Rodrigues Santos, coautora do livro “Família, Afeto e Finanças” (Editora Gente). Para alguns, a tese pode parecer óbvia. Afinal, a educação das crianças deve sempre começar dentro de casa – inclusive a educação financeira. Mas não é assim. Não são todas as famílias que resistem à publicidade e evitam o consumismo – ou mesmo que discutem abertamente o orçamento doméstico. Falar sobre dinheiro ainda é tabu. “As famílias, de modo geral, privilegiam o consumo imediato”, escrevem os autores do livro, que será lançado em São Paulo na semana que vem, durante a feira de finanças pessoais Expo Money.

O resultado são famílias com endividamentos crônicos, incapazes de planejar um orçamento mensal e tomar decisões adequadas por falta de educação financeira. Parte dessa desorganização decorre de crenças e preconceitos sobre o dinheiro transmitidos involuntariamente geração após geração, segundo Angélica. “As pessoas não se dão conta da bagagem limitadora que carregam e reproduzem isso ao longo da vida”, diz.

O primeiro passo para transmitir aos filhos modelos positivos quanto ao uso do dinheiro, portanto, é o autoconhecimento. É fundamental que o pai e a mãe entendam por que têm dificuldade para organizar as finanças, consumir de forma racional e poupar para o longo prazo. Segundo Angélica, o equilíbrio das finanças mostra como anda a maturidade emocional e pode faltar mesmo nas pessoas com muito dinheiro. “Mesmo as famílias de boa renda e alto nível de escolaridade demonstram inabilidade na gestão financeira de seu lar, relatando bloqueios em montar um orçamento equilibrado e pouco tempo dedicado a suas finanças”, diz Angélica no livro, escrito juntamente com o marido, o consultor financeiro Rogério Olegário do Carmo.

O segundo passo para educar os filhos para que se tornem futuros investidores – em vez de excelentes gastadores – é entender que as atitudes são muito mais eloquentes do que as palavras. As crianças aprendem muito mais copiando o que os familiares fazem do que escutando os seus discursos e ordens. Segundo a psicóloga, os pequenos reproduzem os atos – como o consumismo ou a mesquinharia – como também os sentimentos. Por isso, é importante prestar atenção na herança emocional relacionada às finanças que os filhos irão receber.

No livro, Angélica e Rogério ressaltam que o dinheiro está por trás das mais diferentes expressões humanas. Ora ele representa afeto, agradecimento, carência, compensação. Ora reflete remorsos, poder, autoafirmação, exploração. “Ele serve tanto para afastar quanto para aproximar as pessoas”, escrevem. É o que também demonstrou a reportagem de capa da edição de setembro da revista Valor Investe, em circulação desde segunda-feira. Segundo a reportagem, o excesso ou a falta de dinheiro pode gerar divergências sérias entre os casais. É motivo, inclusive, de muitos divórcios.

Uma ferramenta interessante para falar sobre dinheiro com os filhos é a mesada. Para Angélica, os pais devem usar esse instrumento financeiro para ensinar o valor do dinheiro, a diferença entre preço e valor do que se consome e também para demonstrar a importância de poupar. “Dar mesada não é uma obrigação, e o pais não devem dar apenas porque os outros dão”, diz.

Como parte da educação financeira das crianças, ela pode ser usada a partir dos quatro anos dos filhos. Nessa idade, eles já começam a ter noção de tempo, conseguem entender o quanto têm de esperar para comprar um novo brinquedo e podem entender os preços a partir de comparações. Um boneco falante de um desenho animado famoso pode custar um dia inteiro de trabalho do papai, por exemplo.

Com o crescimento dos filhos, a mesada também pode evoluir e se sofisticar. Quando adolescentes, os filhos podem receber os recursos para pagar o curso de inglês ou as roupas novas para as festas de 15 anos das amigas como parte da mesada. Com todo o dinheiro no bolso sob sua custódia, eles terão de pagar em dia o que devem e administrar os recursos para que sempre saiam bem na foto. Junto com a bolada que recebem, sugere Angélica, os filhos devem ganhar o compromisso de guardar comprovantes de pagamento e prestar contas para os pais. Os valores da mesada e as datas de pagamento também podem variar. É uma forma de reproduzir a realidade de muitos profissionais liberais. “É um verdadeiro treino para a vida adulta. Uma forma fantástica de estimular a criatividade e novas respostas para velhos problemas”, afirma Angélica.

Publicado em 21/05/2013
Valor Econômico

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