Educação financeira começa cedo e em casa

Reproduzimos, em seguida, artigo de Renato Bernhoeft, fundador e presidente do conselho de sócios da höft consultoria societária, publicado no jornal Valor: “Atendendo famílias empresárias, por mais de 35 anos, nos seus processos de transferência do patrimônio e legado para as novas gerações, tem sido possível observar que um dos grandes desafios continua sendo o descuido no preparo dos filhos/herdeiros para uma boa relação com o dinheiro e seus significados.

E esse tema tem ainda maior importância num país como o Brasil, onde as fortunas trocaram de mãos de forma muito veloz nas duas últimas décadas. As experiências e lições vividas pela nossa burguesia decadente não tem produzido alterações no comportamento dos chamados “novos ricos”.

Muitos desses mesmos erros vêm sendo repetidos, tanto na ostentação como também na maneira como esses novos “abonados” educam – ou deseducam – seus filhos. Isso na sua relação com o dinheiro, consumo, poder, status, ou seja, com a vida em si mesma.

Empreendedores de origem humilde, em grande parte responsáveis pela construção deste novo Brasil empresarial, continuam sendo pais ausentes, que procuram substituir o diálogo e a formação dos filhos pelo discurso de que “desejam evitar que seus descendentes passem pelas dificuldades e desafios que ele viveu”. Dessa forma, os “poupam” de um processo educativo de conquistas próprias.

E, como resultado dessa conduta, produzem uma sensação de conforto perigoso para os filhos, muitos dos quais se tornam figuras dependentes, financeira e psicológicamente.

Não se sentem, ou menos ainda, consideram-se preparados para construir sua própria história.

É evidente que se olharmos este tema na perspectiva de um mercado consumidor, cheio de atrativos e manipulações, os desafios atuais só tem aumentado para esta juventude. Mais desafiador ainda para um jovem que nasce sob a tutela de um pai brilhante e bem-sucedido.

Essa referência, e figura de sucesso, pode tornar-se, em si mesma, um inibidor na busca dos próprios sonhos e fontes de realização. Ser filho de um pai brilhante publicamente é um desafio, maior ainda para filhos despreparados para a vida.

Acrescentando a esse cenário familiar um total desconhecimento do custo das conquistas, no plano material e emocional, está criado um paradoxo para o qual a maioria dos jovens de hoje não foi preparada.

Com estímulos de consumo que ainda valorizam muito mais o TER e PARECER do que o SER, os jovens procuram preencher um vazio existencial com demonstrações externas de poder pela ostentação de grifes e modismos. Isso quando não se deixam fascinar pelo embalo das drogas, ou vícios, que produzem alienação e uma falta de compromisso com seu presente e futuro. Mas vale sempre lembrar que nada disso está desvinculado do seu passado.

Não se deve esperar que a escola, mentores, tutores, consultores em gestão de finanças pessoais ou quaisquer outros profissionais possam suprir essa lacuna. Eles podem exercer um papel complementar à formação que a família proporcionou aos seus componentes, especialmente às novas e futuras gerações.

É importante dedicar tempo e atenção aos filhos no sentido de que conheçam algo da história familiar e dos valores, não apenas manifestados em lições de moral, mas acima de tudo praticados na coerência entre o discurso e a ação. Tornar os filhos responsáveis, desde muito cedo, por tarefas que gerem recompensas. Tratar de forma respeitosa os empregados da casa e dos ambientes frequentados pela família.

Acima de tudo propiciar uma noção real do valor de tudo que é adquirido e o esforço necessário. Muitos jovens, que receberam tudo de “mão beijada”, não têm noção das profundas diferenças de valor entre um automóvel e uma bicicleta, para ficar apenas em um exemplo banal.

Até porque, ao longo de boa parte da sua vida, nunca tiveram que adquirir absolutamente nada. Tudo lhes foi oferecido mediante o acesso a um cartão de crédito mágico, que ele nunca soube como, quem e por que se pagava.

A atitude de muitos pais, que poupam e fazem reservas para o futuro dos seus filhos, é louvável. Mas numa sociedade que a cada dia mais valoriza a meritocracia é fundamental para as futuras gerações ter uma noção de como o recurso foi gerado. E, acima de tudo, como fazer para agregar valor ao patrimônio.

Um dos objetivos deste artigo é provocar reflexões e ampliar o diálogo entre pais e filhos. Nada substitui os efeitos destes momentos, vividos e aprendidos, em família”. (Valor)

Publicado em 05/03/2010
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