Independência financeira pode evitar relações abusivas

Young blonde businesswoman sitting at her workplace while making business report, calculating annual figures, reading documents and using modern technologies for her work, drinking takeaway coffee

Os casos de violência doméstica não são raros no país, apesar desse tipo de tragédia afetar mulheres de diferentes classes sociais, religião e nível de conhecimento, a educação financeira pode ser um recurso para ajudar na redução dos casos. Na visão dos analistas, fazendo as próprias escolhas financeiras, elas estão menos sujeitas a relacionamentos abusivos domésticos ou até situações de abuso no ambiente de trabalho.

A psicóloga e administradora Marleide Rocha, 42 anos, relata que começou a investir por influência de conversas com amigos e pacientes que trabalham no mercado financeiro. Inicialmente, a preocupação era só com o longo prazo e todas as reservas eram voltadas para essa finalidade. “Quando decidi expandir o meu consultório, percebi que eu poderia investir e tomar um risco um pouco maior visando maior rendimento”, diz.

Assim como ela identificou a necessidade de cuidar das finanças para realizar seus próprios objetivos, ela descreve que lidou com uma série de pacientes que sentiam na pele como “o dinheiro pode servir como uma ferramenta de dominação”. “Ouvi sobre muitas mulheres ficarem reféns de relacionamentos abusivos por conta da dependência financeira após abdicarem da carreira para se dedicarem à casa e aos filhos”, afirma. Ela complementa que a dificuldade da fuga de uma relação como essa acontece, muitas vezes, pela falta de recursos da vítima. A recomendação, portanto, é investir em educação financeira desde cedo.

A experiência da brasileira Gláucia Varago, 44 anos, estampa essa realidade. Há cerca de três anos ela trabalha como assistente pessoal nos Estados Unidos, mas vive em terras norte-americanas há pelo menos quinze anos. Ela explica que só começou a pensar sobre investimentos depois de sair de uma relação abusiva. Durante cinco anos ela foi casada com um homem que lidava com problemas de alcoolismo, mas era o responsável financeiro da família.

Com os abusos psicológicos em casa, Varago desenvolveu quadro de ansiedade, o que desencadeou uma série de efeitos psicossomáticos em seu corpo, como distúrbios hormonais e suspeita de doenças degenerativas. “Fiquei com medo de como aquilo poderia afetar a minha saúde mental. O avanço desse quadro poderia até me afastar da minha própria filha”, diz.

A percepção motivou a busca pela a independência com as finanças. “Comecei a pesquisar sobre investimentos para ter uma aposentadoria confortável e garantir o futuro da minha menina”, afirma Varago. “Acompanho as notícias do mundo econômico e recebo orientação de profissionais brasileiros e americanos, o que me fez ter um pouco mais de segurança.” Seis anos depois do primeiro investimento, e separada há cinco, ela conta que hoje já faz aplicações até em criptomoedas, um dos segmentos de maior risco e alta volatilidade do mercado.

Perfil das mulheres na Bolsa brasileira

O aumento de apetite ao risco entre os investidores foi resultado da maior disponibilidade de informações na internet e da baixa taxa de juros durante a crise do coronavírus. A afirmação é de Tatiana Tribiolli, assessora de investimentos da iHUB. “Apesar da realidade financeira dos brasileiros ainda ser muito delicada, a mentalidade de poupar e investir está mudando por conta da maior facilidade de adquirir conhecimento”, afirma.

Segundo Tribiolli, com o conteúdo sobre finanças mais acessível e elas tomando mais protagonismo no mercado de trabalho, o número de mulheres na Bolsa (27,71% do total) tende a crescer nos próximos anos. Mesmo com o perfil feminino nos investimentos, muitas mulheres ainda têm características conservadoras na hora de aplicar o dinheiro, segundo os especialistas. O comportamento reflete uma insegurança para iniciar a compra e venda de ações na Bolsa de valores. “Analisando a população feminina em geral, ainda encontramos um forte conservadorismo em relação ao investimento em ações”, diz Annalisa Dal Zotto, planejadora financeira e sócia da gestora de patrimônio ParMais.

Dal Zotto complementa que as mulheres que iniciaram os investimentos em renda variável já pesquisaram bastante sobre o mercado financeiro ou confiam em alguém com maior conhecimento, como uma empresa de gestão ou mesmo o parceiro. Uma das razões para a discrepância é a desigual divisão de atividades domésticas e a maternidade. “Em geral, as mulheres conseguem o amadurecimento na carreira entre 40 e 50 anos. Os homens, com 30 a 40 anos, já conseguem altos salários porque não são interrompidos com a maternidade”, destaca Dal Zotto.

Segundo o sócio-fundador da iHUB, Daniel Funabashi, a diferença na porcentagem de participação nos investimentos deve diminuir porque as mulheres estão mais independentes com as finanças e chegando a cargos mais altos, se comparado a anos anteriores. Apesar disso, não há expectativa nos próximos horizontes para a igualdade ou dominância feminina.

Fonte: Einvestidor

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