Mercado de trabalho abre para veteranos

Dolaci Barbosa dos Santos Neri, de 55 anos, trabalhou durante 22 anos sem registro na carteira de trabalho. Nesse período, ela, uma vendedora de roupas autônoma, continuou a procurar um emprego formal, mas sem sucesso. Porém, no ano passado conseguiu ser contratada: tornou-se operadora de caixa em um loja da rede de supermercados Pão de Açúcar. “Com 35 anos não consegui emprego. Com 40 também não. Fui conseguir aos 54”, conta.
O emprego de Dolaci é uma das 160.817 vagas criadas para quem tem entre 50 e 64 anos na Região Metropolitana de São Paulo em 2010. De acordo com os dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), o número de empregos formais para quem está nessa faixa etária cresceu 10,85% na Grande São Paulo em relação ao ano anterior. Para quem tem mais de 65 anos, o resultado foi ainda melhor, com 13,84% de crescimento nas contratações com carteira assinada, o que representa 12.091 vagas a mais que em 2009.

Ambos os resultados estão acima do registrado para quem tem menos idade. Para os trabalhadores entre 25 e 29 anos, por exemplo, o crescimento das contratações em 2010 foi de 5,11% na comparação com o ano anterior, o que equivale a 109.308 vagas abertas no período. O desempenho do mercado de trabalho para quem tem mais de 50 anos só perde para a faixa etária de 16 a 17 anos, com 17,39% de alta, grupo que fica aquém em números absolutos, com 21.637 postos de trabalho ocupados (veja mais abaixo).

Diversos setores estão contratando quem tem mais de 50 anos. Há vagas tanto para nível médio, como em empresas de call center e comércio, quanto para quem tem nível superior, como prestadoras de serviço de consultoria e planejamento, setores de administração, finanças e gestão e indústria. Profissionais formados em administração, economia, engenharia, ciências contábeis e direito são alguns que ainda encontram espaço, de acordo com os consultores.

Na visão de especialistas, o emprego cresce para quem tem mais de 50 anos porque faltam profissionais qualificados no mercado nacional entre as gerações mais novas. Além disso, os mais velhos perceberam que é necessário manterem-se atualizados ao longo da carreira para garantir emprego. “Também houve um amadurecimento das empresas em relação às contratações de pessoas mais experientes. Já houve um tempo em que pessoas mais velhas eram substituídas por mais jovens, havia muito preconceito com quem tinha mais de 45 anos”, afirma Samuel Artus, coordenador de planejamento de carreira da Ricardo Xavier Recursos Humanos.

A professora do programa de desenvolvimento de carreiras do Fundação Instituto de Administração (FIA), Tania Casado, também relaciona o crescimento das contratações de pessoas mais velhas ao aumento da expectativa de vida do brasileiro e sua permanência na ativa por mais tempo. “Há também um aumento da vida laborativa dessas pessoas conforme cresce o tempo de vida delas. E muitos ainda não têm como parar de trabalhar por questões financeiras. Nem sempre a aposentadoria é suficiente”, diz.

Dois desses profissionais que se mantiveram na ativa e não pensam em parar são o engenheiro eletricista Antonio Charro, de 62 anos, e o engenheiro civil José Geraldo de Almeida Monteiro, de 58 anos. Ambos são profissionais contratados pela Via Quatro, empresa concessionária que administra a Linha 4 – Amarela do Metrô. No caso deles, a experiência e conhecimento são os fatores que os mantêm trabalhando.
“O nosso mercado de empresas no setor de ferrovias é muito restrito. Isso é um dos motivos que buscam profissionais como nós. Mas para se manter não pode parar de estudar”, diz Charro.

Já Monteiro trabalha na área de planejamento, o que limita ainda mais a formação de profissionais. Para ele, a aposentadoria chegaria aos 55 anos, até que percebeu que poderia produzir mais. “Hoje, mesmo se eu me aposentar, eu não quero parar. Ainda há muitas oportunidades”, afirma.

Publicado em 04/06/2011
(LUCIELE VELLUTO – Jornal da Tarde-04.06)

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