Nova carreira em vez de pijama

Geração que está perto da aposentadoria pode viver mais, melhor e procura esticar vida produtiva com o bônus de impacto social positivo.

Nem se esforçando Jamie Kaplan soaria mais entusiasmado. No fim da universidade, está cheio de ideias e louco para sair mundo afora e fazer a diferença.
– Mudei totalmente a forma de pensar – diz o aluno da Harvard Business School.

Kaplan pode falar como um jovem estudante, mas tem 58 anos e foge do estereótipo do universitário. Ex-advogado e agora diretor executivo do Cromwell Center for Disabilities Awareness, instituição de caridade em Portland, nos Estados Unidos, está no primeiro grupo de um experimento único de educação em Harvard para pessoas perto da aposentadoria.

A Advanced Leadership Initiative (ALI, Iniciativa Avançada em Liderança em português) tem sido apontada como ruptura radical do status quo da educação. Cresce em um campo chamado de “encore careers”, ou carreiras tardias, quando pessoas prestes a se aposentar são treinadas para uma nova atividade.

A ideia é desenvolver um estágio adicional de Ensino Superior que lapida habilidades e experiências dos mais velhos e coloca os alunos no centro de desafios sociais difíceis. Pesquisa da Princeton Survey Research Associates mostrou que cerca da metade dos americanos entre 50 e 70 anos gostaria de ter atividade com impacto social positivo no fim da carreira.

A ALI é cria de Rosabeth Moss Kanter, professora da Harvard Business School e alguns colegas, incluindo o mentor de Barack Obama, Charles Ogletree. Eles são apontados como modelos, mas também enfrentam críticas. Ao juntar pessoas tão bem-sucedidas – a primeira turma incluía Charles Boldin, ex-astronauta e agora chefe da Nasa – e colocá-los em uma das instituições de ensino mais elitistas do mundo, a iniciativa não poderia ser chamada de inclusiva. Kanter se defende dizendo que, se Harvard é o laboratório, nada impede que o projeto possa ser adaptado em outro lugar. É uma das formas de lidar com o envelhecimento das populações.

De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), a expectativa de vida média na Grã-Bretanha é de 79 anos, enquanto nos EUA é de 78,2 anos. Kanter lembra que ela, seus colegas e os alunos da ALI são “baby-boomers”, nascidos depois da II Guerra Mundial, e compartilham com sua geração a chance de ter uma vida mais longa e saudável do que seus pais. Também desejam, diz Kanter, continuar aprendendo e contribuindo com a sociedade.

Na Grã-Bretanha, milhares de pessoas atuam em suas comunidades depois da aposentadoria. Mas são os dados sobre educação que sugerem que Kanter está certa. Números recentes da Agência de Educação Superior mostram que cerca de 130 mil pessoas acima dos 50 anos estão fazendo cursos em universidades e faculdades britânicas.

A diferença do projeto de Harvard em relação à educação continuada é a mensagem ambiciosa aos idosos. Mervyn Kohler, conselheiro especial da organização Age Concern and Help the Aged, considera a ALI uma ideia instigante que dá oportunidade aos mais velhos.
A possibilidade de implantar na Grã-Bretanha iniciativas baseadas nesse modelo parece remota. Alguns participantes pagam parte dos custos, mas a universidade e outras fundações subsidiam. É uma realidade distante das faculdades britânicas, que enfrentam cortes no orçamento e aumento nas mensalidades.

Susan Leal, 59 anos, ex-gerente geral da Comissão de Serviços Públicos de San Francisco, especialista em água e bolsista como Kaplan, diz que integrar a ALI resolveu o dilema que enfrentava na aposentadoria:
– Eu e meus amigos nos perguntávamos: vamos tirar longas férias? Nossas cabeças ainda funcionam, e temos muito a oferecer. O modelo tem potencial para pessoas de todos os níveis.

Publicado em 18/01/2010
(Mary Ohara – The Guardian, tradução: Rodrigo Müzell – Zero Hora-17.01)

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