Os brasileiros que vivem mais

A expectativa de vida medida pelas estatísticas oficiais não vale para todos. Uma pesquisa mostra que há uma parte da população que chega mais longe.

O Brasil tem, desde a semana passada, uma nova tabela biométrica para nortear as empresas que oferecem seguros de vida e planos de previdência privada. Esse instrumento serve para que elas calculem o preço de seus serviços de acordo com a idade e o sexo dos clientes. A princípio, a nova tabela seria de interesse apenas de bancos e seguradoras. Ocorre que ela traz uma novidade de maior amplitude. A tabela mostra que há um contingente de 32 milhões de brasileiros com expectativa de vida bem mais alta que a dos outros 160 milhões com os quais compõem a população do país. Nesse grupo, a expectativa para os homens é de 81,9 anos, contra 69,1 anos, se for levada em conta a totalidade dos brasileiros. As mulheres vivem, em média, 87,2 anos, contra 76,7 anos, quando se consideram todas as brasileiras.

Essas cifras resultam de uma pesquisa feita ao longo de três anos pelo laboratório de matemática da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com base em dados fornecidos por 23 empresas seguradoras. Os 32 milhões de pessoas que formam o universo da pesquisa possuem planos de previdência privada, ou seguro de vida, ou ambos. São brasileiros de bom poder aquisitivo, que têm condições de planejar o futuro.

Até agora, a tabela usada pelas seguradoras brasileiras se baseava na sua equivalente americana. A nova tabela mostra que o grupo de 32 milhões de brasileiros tem uma expectativa de vida maior ainda que a dos americanos, embora estes vivam no país mais rico do mundo. A explicação dos especialistas para essa aparente contradição é que, nos Estados Unidos, as classes de menor poder aquisitivo também contratam seguros e planos de previdência. No Brasil, apenas a população mais abastada, que tem condições de cuidar melhor da saúde e levar uma vida mais saudável, lança mão desses serviços. O médico Claudio Lottenberg, presidente do Hospital Albert Einstein, de São Paulo, complementa o raciocínio: “Os americanos, embora líderes na tecnologia da medicina, desprezam alguns fatores fundamentais para uma vida longeva, como a boa alimentação e a atividade física.

Nesse aspecto, os brasileiros da classe alta são mais cuidadosos que os americanos em geral. Estão mais próximos dos europeus”. O geriatra Alexandre Busse, do Hospital Sírio-Libanês, de São Paulo, observa que a expectativa de vida no Brasil aumentou para todas as faixas de renda, mas nas classes A e B ela já alcançou níveis de Primeiro Mundo devido ao acesso à informação e à educação. “A classe alta brasileira aprendeu a fazer prevenção e diagnóstico precocemente. O fato de ter melhor educação faz com que siga à risca os tratamentos”, diz.

A adoção da nova tabela biométrica vai promover alterações tanto na contratação de seguros de vida quanto na de planos de previdência privada. No caso das apólices de seguros, estima-se que o valor mensal pago pelo cliente caia de 10% a 15%. Como a expectativa de vida do segurado, de acordo com a pesquisa da UFRJ, é maior do que se pensava, conclui-se que ele passará mais tempo pagando mensalidades à seguradora.

No caso dos planos de previdência privada, ainda não foi estabelecida uma norma geral para a adequação à nova tabela. O cliente, passada a data de aposentadoria estipulada pelo contrato com a empresa, terá de receber seu dinheiro mensal por mais tempo do que previa a tabela anterior. Por isso, é possível que ele tenha de contribuir por um período maior antes de se aposentar. “Talvez seja preciso ajustar os valores dos planos de previdência, para que não haja prejuízo, mas é possível também que as seguradoras diminuam as taxas de administração”, diz Renato Russo, vice-presidente de vida e previdência da SulAmérica Seguros. As regras não mudam para quem já tem seguro ou plano de previdência contratado.

Publicado em 22/03/2010
Clipping AssPreviSite – (Alexandre Salvador e Carolina Romanini – Revista Veja)

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