Projeto de vida na terceira idade

1- O que é um projeto de vida?
É uma VISÃO DE FUTURO. Algo que faça sentido, que tenha um significado profundo, alinhado com as mais sinceras crenças de uma pessoa. Esse algo deve estar baseado numa experiência concreta que se deseja obter, conquistar ou desenvolver.

Envolve opções, mudanças de comportamento, firmeza de atitudes. É um traçado que reflete os valores principais dessa pessoa, aquilo pelo qual ela deseja lutar e fazer prosperar, mesmo quando não mais estiver aqui e, nem mesmo, tem certeza de vir a colher.

Um projeto de vida requer o desenvolvimento de inúmeras habilidades pessoais e a aquisição de capacidades e competências, próprias e, também, alheias. Por exemplo: Pode-se ter como projeto de vida ajudar esse Brasil a se recuperar da tremenda crise social em que está imerso e diminuir suas cruéis desigualdades.

Não é que cada qual vá consertar este País, mas vai ter imenso prazer em ajudar uma criança a estudar, em ensinar bons princípios em casa, em ser solidário com os vizinhos, em participar ativamente da política nacional, ajudando a eleger políticos perfeitamente alinhados com a proposta da educação e a prática da tolerância social. Lembramos que, a melhoria deve sempre começar de dentro, ser espontânea, de livre escolha e consciente.

2- Como se cria um projeto de vida na terceira idade?
Da mesma forma que se cria na infância. A gente pensa no quer ser quando crescer e, em geral, isso evoca um senso de orgulho pessoal (auto-estima) e desejo de “ser alguém” reconhecido, de fazer uma diferença. E parte em busca do que se sonhou.

Esse projeto leva, mais ou menos, de 40 a 50 anos para se realizar, para a gente ver se conseguiu, se foi além. Na idade mais madura, a pessoa pensa no que ser quando envelhecer. Vai em busca, se empenha e, depois de mais outros 40 ou 50 anos, colhe o que plantou. Se não colhemos o que pessoalmente plantamos, colhemos o que os outros já plantaram antes para a gente.

Na verdade, nenhum projeto de vida está desvinculado desse compromisso. A gente até pode se recusar a ter esse projeto, se recusar a plantar. Mas todos são obrigados a colher o que já plantaram antes.

Outra coisa, para se ter um bom projeto, ele precisa ser de longo prazo. A gente pensa no que deixar para as gerações vindouras e esquece que um dia vai morrer. Age como se o dia de hoje fosse sempre uma boa oportunidade para se renovar.

3- Como colocá-lo em prática? É mais difícil nessa fase da vida?
Não, não é mais difícil. Pelo contrário, as pessoas estão mais conscientes do que presta, do que não presta e, portanto, têm mais discernimento ao escolher.

Quando se é jovem é fácil embarcar nos projetos de vida alheios. Quando se é mais velho, a gente só age e persevera se o projeto for próprio, pois as pessoas mais velhas não aceitam muito ser manipuladas.

Como praticar? Primeiro, sonhar. Descobrir o que nos torna felizes (e isso é individual). Orçar: tempo, esforços e gastos. Crescer: planejar de uma forma realista, começar pequenininho e comemorar cada conquista, por pequena que seja. Qualquer bom projeto de vida vai causar tudo isso e muito mais.

Haverá, claro, aborrecimentos, preocupações, cansaços. Tudo normal. Quem não quer ter nada disso, então, deve aceitar que os outros governem a sua vida.

4- Quais as grandes dificuldades que os idosos encontram para elaborar um projeto de vida?
Desconhecimento de si próprios. Envelhecimento precoce. Preconceitos quanto a si mesmos. E, falta de disciplina pessoal. Tem gente que não sabe o que quer da vida a não ser reclamar de tudo e de nada. Quem teu seu projeto, também vai reclamar, mas muito menos e, provavelmente, vai reclamar de coisas justas.

Depressão, falta de amor próprio, dependência, autocomiseração (peninha de si mesmo) e PREGUIÇA. Sempre tem aqueles que não querem saber de nada com nada. Esses, não têm jeito. O mundo deve a eles! Um projeto de vida envolve o Servir.

Aquilo que conseguimos para nós mesmos, nos traz satisfação. Mas aquilo que, com generosidade autêntica (prazer de ver o outro crescer, se expandir) usamos para ajudamos o outro a construir, isso nos traz realização. O Servir é esta realização que não tem fim, que não se sacia, porque há sempre mais a construir.

5- Quais são as dicas para colocar os projetos em prática?
Discernir entre imaginar, sonhar e traçar objetivos. A imaginação não tem fronteiras, rompe barreiras, não aceita freios. O sonho dulcifica essa jornada. Os objetivos, pelo contrário, precisam ser comedidos e bem fundamentados. São concretos e limitados.

Podemos negociar objetivos e prazos, mas sonhos, não. Imaginação, então, não aceita cerceamento. Imaginar é a base da ciência e da religião.

Temos que ter claro qual é o nosso propósito de vida, qual o sentido da nossa vida. Mesmo quando não conseguimos enxergar o nosso futuro, precisamos saber que ele existe, que poderemos descobri-lo. Vai além da esperança.

A esperança pode ser frustrada e morrer, o sentido de vida é o que nos ajuda a prosseguir, mesmo quando tudo o mais nos empurra para baixo, quando a vida é adversa. Quando nos sentimos totalmente abatidos, só renascemos, quando a vida volta a fazer sentido.

E isso pode acontecer de uma hora para outra: um olhar de uma criança, uma boa palavra de alguém, uma flor que se abre, um cachorrinho que nasce, qualquer coisa que volte a nos comover e, assim, sentir que estamos vivos. A vida não precisa ser justificada. Basta estar vivos!

6- O que, geralmente, falta quando o projeto não vai adiante?
Falta um pouco de filosofia, um pouco de fé e um pouco de vontade de continuar. Sem um projeto de vida a pessoa sente-se derrotada. É o desânimo, o abatimento, a desistência. Independente da idade.

Talvez falte, também, força de caráter. Se for isso, então, não tem mais jeito. Por que fé, esperança e ânimo, dá para recuperar. Mas, caráter, ou se tem ou não se tem. E, quem tem, jamais perde.

Ana Perwin Fraiman – psicóloga, escritora, especialista no desenvolvimento de Programas para Preparação da Aposentadoria.

Publicado em 14/12/2009
Revista Mais de 50

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