Reforma da previdência vira batalha na França

Protestos se tornaram violentos e cresce número de confrontos entre policiais e manifestantes.

A radicalização dos movimentos de protesto contra a reforma da previdência, em especial dos sindicatos de petroleiros e dos estudantes, está levando a França ao paulatino desabastecimento de combustíveis e ao aumento da violência nas ruas.
Ontem, mais de 2,6 mil postos de combustíveis enfrentaram falta de estoques, enquanto nas periferias das maiores cidades do país houve incidentes entre a polícia e os jovens manifestantes. Mais de 200 foram presos. Hoje, uma nova jornada de mobilização deve parar o país.

Os protestos mais agressivos contra a reforma da previdência ocorreram pela manhã, em Nanterre, na periferia de Paris. Cerca de 200 a 250 estudantes secundaristas – a maioria encapuzados – atacaram abrigos de ônibus, lixeiras e automóveis e responderam com pedras às bombas de gás lacrimogêneo e disparos de balas de borracha da polícia.

Incidentes violentos também ocorreram em Combs-La-Ville, onde carros foram queimados e coquetéis molotov atirados na polícia. Em Lagny e Evry também houve quebra-quebra, e em Saint-Denis uma galeria foi saqueada.

No interior, houve violência em Nantes, Lyon, Lille e Mulhouse. Segundo a União Nacional de Escolas Secundárias (UNL), estudantes bloquearam 550 escolas de 2.º grau. Para o Ministério da Educação, o número não chegou à metade.

Em outra frente de batalha sindical, a greve dos petroleiros já leva ao desabastecimento mais de 2,6 mil postos de combustíveis dos 12,5 mil do país, conforme a petrolífera Total, a Federação Francesa dos Combustíveis (FFCCC) e a União dos Importadores Independentes Petroleiros (UIP). Filas de espera de uma hora se espalharam pelo país. Em compensação, os Aeroportos de Roissy-Charles de Gaulle e Orly tiveram o abastecimento suprido. Os problemas continuam a ser causados pela greve dos petroleiros em todas as 12 refinarias do país e pelo bloqueio de reservatórios.
Gabinete de crise. O presidente Nicolas Sarkozy, que defende a reforma, formou um gabinete de crise com ministros para adotar medidas de emergência. Ontem, os ministros da Economia, Christine Lagarde, da Indústria, Christian Estrosi, e dos Transportes, Dominique Bussereau, se revezaram na imprensa para assegurar que o abastecimento do país será normalizado.

Em Marselha, em outro foco da greve, a coleta de lixo foi suspensa e toneladas de detritos começam a se acumular nas ruas. A cidade vive ainda o bloqueio do porto, que obriga dezenas de navios a aguardar a carga e a descarga no Mediterrâneo.
Apesar das garantias do governo, os franceses se mostram céticos quanto à solução dos problemas. Isso porque hoje nova jornada de protestos será convocada pelos sindicatos. E, amanhã, o Senado deve começar a examinar o texto definitivo da reforma que eleva a idade mínina da aposentadoria de
60 para 62 anos.

PARA LEMBRAR

Os protestos estudantis na França trazem de volta a violência da revolta nas periferias do país em 2005 e 2006, mas têm naturezas diferentes. Há cinco anos, a revolta teve como alvo a polícia e o Ministério do Interior, após a morte de dois jovens, de 15 e 17 anos. O resultado foram três semanas de depredação em diferentes cidades francesas, no maior movimento de contestação desde 1968. Agora, as depredações são promovidas por estudantes secundaristas contra a reforma da previdência social.

Publicado em 19/10/2010
(Andrei Netto – O Estado de S.Paulo)

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