Torcida de investidor vai muito além da Copa do Mundo

Não é somente a curiosidade para descobrimos quem será o novo campeão do mundo de futebol que caracterizará este início de segundo semestre. Na verdade, viveremos com uma espada na cabeça do mercado ao longo dos próximos meses: a economia global, após alguns sinais efêmeros de recuperação, sofrerá uma recaída?

Ao longo dos últimos meses, aqui neste espaço, relatei minhas apreensões quanto à efetiva melhora no quadro de crise e, por diversas vezes, manifestei convicção de que a economia americana caminhava a passos largos para uma armadilha da liquidez – caso descrito por Keynes -, na qual a política monetária é praticamente ineficaz. Só para se ter ideia do que ocorre atualmente, o multiplicador de meios de pagamentos nos EUA, que na década de 1980 chegou a ser três, hoje se encontra num nível menor do que um. O que isso significa?

Para cada novo dólar de base monetária, o resultado é um incremento inferior a um dólar na oferta monetária. Ademais, existe um excesso de reserva bancária (acima de U$ 1 trilhão), que “dorme” no “overnight” e, diferentemente do passado, está sendo remunerada pelo “fed funds”. Em minha avaliação, tudo isso demonstra que o “quantative easing”, aplicado pelo Banco Central americano, para mitigar os efeitos da crise, pode não estar surtindo o efeito desejado. Ou seja, a situação não está melhorando de forma efetiva!

Analisando o lado fiscal, a situação também não permite devaneios. Com um déficit público que já ultrapassa os 11% do PIB, como gastar mais, para estimular a economia? Praticamente impossível. É consenso, entre analistas econômicos, que as contas americanas precisarão encontrar um ponto deinflexão num futuro não muito distante, sob pena de vermos os investidores questionando à solvência da principal economia do planeta.

Sob a ótica corporativa, as empresas americanas obtiveram os bons lucros recentes através de fortes reduções em seus custos. Agora, todavia, será preciso aumentar preços, para impulsionar as receitas. Se a economia está saindo da recessão, como fazê-lo, num ambiente de inflação próxima de zero? Daí não acreditar em boa performance do mercado acionário americano, mormente o S&P 500.

Em relação à Europa é difícil ficar otimista. E não é somente pelo comportamento dos PIIGS. A débâcle pode estar se espalhando, contaminando países que outrora supúnhamos saudáveis. Mesmo com a aparente firmeza do sistema bancário, não se pode garantir que os principais bancos não estejam vulneráveis à grande exposição de títulos das nações com problemas. Tenho um grande receio, por exemplo, de que tenhamos uma redução, pelas agências de rating, das perspectivas de países como a França, na linha da Espanha.

Enquanto isso, nos últimos meses, a tese de que Brasil, Rússia, Índia e China podem segurar o tranco foi a grande força alentadora de uma recuperação mais consistente. Afinal, até nós cresceremos 7% esse ano. O que me impressiona é que quaisquer leituras de números ou ações divulgados nesses países invariavelmente são interpretadas como extremamente positivas.

Foi o caso, por exemplo, da recente decisão do Banco Central chinês de deixar sua moeda se valorizar. A visão – quase unânime – foi de que a atitude seria construtiva. Entrementes, em minha leitura, analiso a questão como uma possível mudança do atual modelo econômico da China, no sentido de frear seu crescimento gigantesco, reduzindo as exportações e dando mais peso ao mercado doméstico. Se assim for, só o tempo dirá se essa nova configuração será eficaz o suficiente para manter a recuperação global lastreada na pujança sino-tupiniquim.

Para o prêmio Nobel de economia, Paul Krugman, os EUA estão em depressão, caminhando a passos largos para repetir o desastre japonês dos últimos anos. Não dá para discordar, especialmente diante do quadro dramático de desemprego. O que esperar, então? Continuo, como sempre, descrente da tese de “decoupling”. No “W” que a crise parece desenhar, só posso torcer para que a segunda perna seja bem menor do que a primeira. Afinal, ninguém deseja que a mesma perdure até a Copa no Brasil.

Publicado em 07/07/2010
Alexandre Espírito Santo é economista da Way Investimentos e diretor do curso de RI da ESPM-RJ

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