O aumento da taxa de juro real – a parcela do ganho das aplicações financeiras que supera a inflação – provocou estragos na carteira de vários investidores, especialmente daqueles que possuem títulos públicos com vencimento de longo prazo.
Além dos aplicadores em papéis negociados no Tesouro Direto -— o sistema de negociação eletrônica de títulos públicos -—, diversos gestores profissionais estão tendo que administrar as perdas. E mostrar para os clientes que, com o passar do tempo, as posições das carteiras voltarão a contabilizar lucros.
O aumento dos juros tem o efeito de provocar a queda imediata do valor de mercado dos títulos de renda fixa. Com taxas mais altas agora, é preciso desembolsar menos para acumular a mesma quantia quando as taxas eram menores.
Imagine uma aplicação com resgate fixado em R$ 1 mil com correção pela inflação e vencimento daqui a um ano. Com juros de 3,5% ao ano, o valor dessa aplicação é de R$ 966. No entanto, se os juros sobem para 5,5% ao ano, a aplicação passa a valer R$ 948, queda de quase 2%. Se o prazo de resgate do título for maior, as perdas aumentam.
Os prejuízos ocasionados pela subida dos juros reais são refletidos imediatamente no valor das cotas dos fundos de investimento. No mês de maio, por exemplo, a rentabilidade média das carteiras de previdência de renda fixa foi praticamente zero. No acumulado do ano, o ganho mal supera metade do rendimento da tradicional caderneta de poupança.
Se o desempenho ruim incomoda os investidores, uma das justificativas dos gestores é a falta de flexibilidade para administrar as carteiras, decorrente do ativismo do governo. Um exemplo é a resolução do Banco Central, publicada no início deste ano, que determinou que o prazo médio dos papéis de renda fixa dos fundos de previdência deve ser de pelo menos cinco anos.
O prazo de enquadramento às novas regras é dezembro de 2015, mas desde o fim de maio estão proibidos investimentos que reduzam o prazo médio dos títulos da carteira.
Quando a taxa de juro real estava em queda, alongar os prazos não era um problema. Bastava comprar títulos com vencimentos mais dilatados para conseguir ganhos acima da média dos indicadores de referência. A marcação a mercado das aplicações provocava umefeito oposto ao que severifica nas condições atuais.
O problema parece ter sido o excesso de otimismo acerca da capacidade da economia brasileira de operar com juros reais mais baixos. Nesse ponto, o discurso das autoridades econômicas foi contagioso.
No fim de 2010, o aplicador que quisesse investir por cinco anos em títulos atrelados à inflação poderia conseguir taxa de juro real de 5,8% ao ano. No Tesouro Direto, a estratégia envolveria a compra de Notas do Tesouro Nacional da série B Principal (NTN-B Principal), papel corrigido pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
Combinando os vencimentos de maio de 2015 com agosto de 2024, seria possível fixar o prazo médio do investimento em cinco anos. Em dezembro de 2011, a mesma estratégia renderia juros de 5,5% ao ano acima da inflação. A queda do juro real significou ganho de capital adicional para os investidores que apostaram em continuar com a estratégia.
Lucros mais expressivos foram registrados no fim de 2012, quando a posição em NTN-B Principal com prazo médio de cinco anos passou a render inflação mais 3,6% ao ano. Além de proporcionar ganhos, o aumento do valor de mercado dos títulos estimulou mais investidores a perseguir a estratégia de alongar a carteira em títulos indexados ao IPCA.
A contrapartida para o otimismo das aplicações de longo prazo era a constatação de que, no curto prazo, os juros reais eram cada vez menores. Em 2010, a diferença entre a variação da taxa média Selic e o IPCA foi de 3,7%.
No ano seguinte, o diferencial entre juros de curto prazo e inflação aumentou para 4,8%. Mas logo em 2012 caiu para 2,5%. A interpretação era a de que o Brasil, finalmente, passaria a praticar juros reais mais baixos, mesmo que a inflação ficasse perto do teto da meta de 6,5% ao ano.
Em pouco mais de três meses, uma série de fatores provocou mudanças radicais na forma como os investidores passaram a encarar o futuro da economia brasileira. O aumento da taxa Selic, incertezas em relação ao compromisso com o equilíbrio fiscal e a ameaça de déficit externo provocaram uma reviravolta nas expectativas.
A vantagem do atual clima de incertezas é que as pessoas, ressabiadas, tendem a adiar o consumo, o que favorece o controle da inflação. Para o governo, o desafio é passar confiança que essa crise é passageira e evitar que o pânico contamine as expectativas.
Publicado em 12/06/2013
http://www.valor.com.br/valor-investe/o-consultor-financeiro/3159236/alta-do-juro-real-traz-perdas-para-aplicacoes





