Fundos: Patrimônio encolhe, mas é preciso ter sangue frio

Diante da onda de incerteza que varre o mercado financeiro, praticamente todas as aplicações estão registrando perdas, inclusive os planos de previdência complementar. Analistas pedem paciência

O trabalhador que tem economizado pensando na aposentadoria, sonhando complementar os rendimentos do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), está vendo parte do patrimônio minguar. Com a queda dos rendimentos dos títulos públicos, as perdas na bolsa de valores — que apenas neste ano chegam a R$ 186 bilhões —, e a inflação persistente, é preciso ter sangue frio para não se desfazer dos investimentos na hora errada e ficar no prejuízo. Passado esse momento mais complicado, os ganhos vão voltar. Quem tiver paciência para esperar, não vai se arrepender.

Segundo os especialistas, tanto os fundos fechados de previdência, voltados exclusivamente para um grupo de 2,3 milhões de trabalhadores, aí incluídos os de empresas estatais como a Petrobras, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, quanto os fundos de previdência abertos, ofertados a toda a população por bancos e seguradoras, estão perdendo. É que o patrimônio desses fundos, formado pelas aplicações dos poupadores, estão divididos entre títulos públicos e ações negociadas em bolsa. Somente no mercado acionário, os fundos fechados perderam, até o momento, R$ 36,6 bilhões. No caso dos demais fundos, os prejuízos passam de R$ 1 bilhão.

A boa notícia, no entender dos analistas, é que as aplicações em fundos de previdência são de longo prazo, de 20 a 30 anos. Portanto, há tempo de sobra para que o mercado recupere o fôlego e volte a dar ganhos. Isso acontecerá, sobretudo, a partir da esperada queda da inflação e da retomada mais forte da economia. Essa também é a expectativa para os fundos de renda fixa, que estão abarrotados de títulos públicos, principalmente as Notas do Tesouro Nacional — Série B (NTNs), que vêm acumulando perdas de R$ 40 bilhões desde o início do ano. Esses prejuízos decorrem da forte oscilação das taxas de juros, num momento em que o Banco Central conduz um aperto na política monetária com o intuito de pôr o custo de vida nos trilhos.

No caso da caderneta de poupança, cujo rendimento deve mudar a partir de julho, quando se espera que a taxa Selic salte dos atuais 8% para 8,50% ao ano, os ganhos acumulados no ano estão em 2,53%, abaixo da inflação medida no mesmo período pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), de 2,88%. Também a remuneração dos Certificados de Depósito Bancário (CDBs), de 2,78%, não está conseguindo acompanhar o ímpeto dos reajustes de preços (veja quadro nesta página).

Hora de comprar

Para Ricardo Rocha, professor de economia do Instituto Insper, as oscilações do mercado financeiro são naturais. “Hoje, estamos vendo um recuo nas cotas dos fundos de investimentos e queda na bolsa de valores. Mas, do mesmo jeito que agora está em queda, deverá haver ganho no futuro”, observou. Ele explicou que, quando os investidores decidem direcionar parte de suas economias para fundos de previdência fechados ou abertos, na prática, estão, indiretamente, comprando ações e títulos públicos. Até recentemente, lembrou ele, esses planos previdenciários vinham computando retornos excelentes.

Esse quadro, porém, mudou, diante dos sinais emitidos pelo Federal Reserve (Fed), o Banco Central dos Estados Unidos, de que está chegando a hora em que terá de reduzir parte dos estímulos dados à maior economia do planeta. Com essas indicações, os investidores começaram a desmontar operações nos países emergentes como o Brasil para tirar proveito da alta de juros norte-americanos. Não à toa, a Bolsa de Valores de São Paulo (BMF&Bovespa) encolheu ontem mais 1,18%, ao recuar para os 49.180 pontos. No ano, o pregão paulista já caiu 19,31%, o maior tombo no mundo.

Segundo Rocha, com as ações e as cotas dos fundos de investimentos em queda, o momento é de compra e não de fuga. “Só vai haver prejuízo se o investidor tirar o dinheiro. Enquanto o mercado estiver caindo, a hora de comprar e não de vender”, explicou. Jurandir Sell Macedo, consultor de finanças pessoais do Itaú Unibanco, fez avaliação semelhante. Para ele, o efeito manada entre os poupadores é real. “A maioria das pessoas entra no mercado quando há grande euforia e tudo está caro, e deixa para sair nos momentos de pânico, quando os preços de ações e dos fundos estão baratos”, disse.

Na visão de Macedo, a melhor forma de preservar o patrimônio e garantir um futuro mais tranquilo é ter um plano de investimento de longo prazo e de retiradas graduais. Ele aconselha, sobretudo para quem tem uma menor quantidade de recursos disponível, aplicar valores menores, mas todos os meses. O ideal é que o dinheiro permaneça guardado por muitos anos. Quanto mais tempo, menores são os riscos. “O mundo ainda vai passar por crises, mas ninguém que investiu por um longo período perdeu dinheiro”, observou.

Publicado em 13/06/2013
Correio Braziliense

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