Idosos passam a ser os provedores

Antes eles dependiam dos filhos. Hoje a lógica inverteu. Os idosos pagam as contas, sustentam a casa, assumem a responsabilidade dos netos. A renda dos aposentados e pensionistas nunca foi tão disputada. Em especial nas camadas mais pobres e nos municípios do interior. A pesquisa Longevidade no Brasil encomendada pelo Bradesco Vida e Previdência confirma a inversão dos papéis. Do conjunto de 2 mil entrevistados em seis cidades (Recife, Maceió, São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Caxias do Sul), 80% dizem que sustentam os parentes e apenas 19% têm ajuda financeira dos familiares. O maior acesso à aposentadoria e à pensão por morte, em especial na zona rural, transformam o idoso entre 55 e 75 anos numa “mina de ouro”. Na área urbana o desemprego e a falta de renda empurram os filhos de volta ao colo dos pais.

São oito filhos, dezesseis netos e o primeiro bisneto. A agricultora aposentada Santina Tertulina de Belo, 72 anos, fica contente aos domingos. Dia de almoço com a família reunida. “Só não vem Andréia e o meu neto de seis anos que moram em São Paulo. É uma alegria só, minha filha, mas tem que ter muita comida na mesa”, explica. Santina mora no sítio Engenho Novo, no Cabo de Santo Agostinho, e ajuda quase todos os filhos. Só o mais velho,

José Severino, 49 anos, tem carteira assinada como entregador de pão. Mesmo assim ainda recorre à mãe quando a coisa aperta. “É uma tristeza viver com esse dinheiro e ainda ter que pagar dívida dos filhos”, reclama.

Santina tem razão. Começou a trabalhar na roça aos sete anos, ajudando o pai. Depois casou e continuou na lavoura ao lado do marido. Viúva há 23 anos, ela recebe a pensão do companheiro e a aposentadoria rural. Já fez três empréstimos consignados para pagar dívidas da família e outro no Banco do Nordeste para ajudar o filho do meio, José Elias, 39 anos, a abrir um negócio. “Só vou terminar de pagar em 2014. Agora descobri que estou no SPC por causa desse empréstimo quando fui comprar um sapato na loja”, diz, em tom dedecepção. A primeira parcela do décimo terceiro já voou. Mesmo assim Santina se conforma: “Se eu não ajudar eles, quem vai ajudar?”

Do campo para a cidade, a situação do aposentado Mário Santos, 55 anos, não é muito diferente. Quatro filhos, dois netos (Lavínia, 3 anos, e Guilherme, cinco meses), o aposentado recebia cinco salários mínimos e agora encolheu para um e meio (R$ 750), devido à política de reajuste dos benefícios acima do piso. Sustenta o filho Adriano, 28 anos, que é deficiente. Alexandre fazia bicos e há um mês conseguiu emprego como ajudante de produção. Moram ainda com a família as filhas Andrezza, 23 anos, desempregada, e Andréia, que trabalha como serviços prestados.
“Ajudo todos os meus filhos. Adriano tem benefício assistencial, mas a gente gasta muito com remédio, alimentação especial, e tem os meus dois netos que temos que dar assistência”, comenta. Mário não reclama e ainda pensa em voltar ao batente para completar a renda da aposentadoria. “Me sinto feliz em ajudar os meus filhos. Agente colocou no mundo e não deve correr da responsabilidade. Quando eles estiverem numa situação melhor vão nos ajudar”, diz com resignação.

Para o presidente da Federação dos Aposentados e Pensionistas de Pernambuco, Maurício Wanderley, a pesquisa não surpreende porque na maioria dos lares os idosos são o esteio da família. “No interior é que a gente encontra maior índice de aposentados que colocam os filhos com os netos dentro de casa para sustentar”, diz. Já o economista Luiz Henrique Romani, da Fundação Joaquim Nabuco, destaca que a aposentadoria rural no Nordeste é uma das principais rendas e confere ao idoso o papel de chefe do lar. Outro fenômeno apontado por ele é maior acesso ao crédito via empréstimo consignado, que faz com que as pessoas da família recorram ao idoso quando estão em dificuldade financeira.

Publicado em 16/11/2009
Clipping AssPreviSite – Rosa Falcão – Diário de Pernambuco

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